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Chegamos à Cidade do Cairo na boca da noite.
 
A mania por segurança do Oriente Médio, que convivêramos até então, foi quebrada quando entramos no terminal do aeroporto e um sorridente senhor de seus 40 anos, confirmou, com o nosso olhar, que éramos nós os donos dos nomes que ele exibia em um papelão. A recepção foi como a de velhos amigos.
 
O Cairo é cliente do jeitinho brasileiro: o fato de termos sido convidados pelo presidente da Agência de Desenvolvimento Metropolitano da Cidade do Cairo, que houvéramos conhecido em Istambul, durante o Habitat II, facilitou-nos a chegada. Não passamos pelo sistema de segurança, não fizemos a aduana e não entramos na fila do visto de entrada.
 
O caos urbano reina ali. O trânsito, sem sombra de dúvida é o pior do mundo. Lima, no Perú, perde feio. As pessoas dirigem em alta velocidade e com a mão na buzina. Eu e Ann experimentamos ver até quanto poderíamos contar sem ouvir 1500 buzinas soarem: não conseguimos passar do número quatro. A coisa virou piada. À noite, ao adormecer, eu sonhava com buzinas soando solenes nos meus ouvidos.
 
O Egito é o berço de uma das mais antigas civilizações da Terra. O majestoso Nilo guarda em seus vales cerca de oito mil anos da história do povo que sempre viveu em suas margens. Os egípcios o chamam de dádiva dos deuses.
 
Os vales do Nilo são as únicas áreas férteis em todo o Egito, cerca de 30% do território. O resto é deserto árido. É no deserto, todavia, que se encontram, pelo seu tempo e sua magnitude, as mais esplendorosas obras que o Egito construiu e legou à humanidade.
 
Nos subúrbios do Cairo, apertada por ruas mal cuidadas e sujas, não mais que de repente, descobre-se que existe a máquina do tempo: surgem as ruínas de Memphis, que cinco mil anos atrás era a mais importante capital do Alto Egito.
 
As ruas eram calçadas com pedra calcária e os monumentos imponentes dos faraós, feitos da mesma pedra, em um só bloco soltam a sua imaginação. Com um mínimo de criatividade pode-se ouvir e ver a cidade viva.
 
Ali está, quase intacta, a majestosa estátua de quase quinze metros de altura de Ramsés II, até hoje visto como um dos maiores empreendedores que o Egito teve.
 
O deserto de Sakara, também nos arredores do Cairo, às margens do Nilo, guarda uma das sete maravilhas do mundo antigo e a única remanescente: as pirâmides que os faraós construíam em vida, para servir de morada quando mortos, onde deveriam esperar a ressurreição.
 
Quéops foi magistral. A pirâmide que fez construir para seu túmulo, acabou por ser um monumento a sua imortalidade. Está ali há cinco mil anos e por mais cinco poderá estar. Disse Heródoto, ao aprecia-la que a vida teme o tempo e o tempo teme as pirâmides. Não há ser humano que não consiga soltar o filósofo que até então se resguardara, diante daquilo.
 
O homem adora ver o fruto de sua grandiosidade, embora para produzi-la, muita vez, ele tenha que romper os limites da sua insensatez: cem mil homens construíram Quéops em trinta anos, por pão e água. Foi a eles a minha reverência.
 
A esfinge guarda as pirâmides fitando o infinito. Seu olhar enigmático e solenemente impávido viu passar por ali de Alexandre, O Grande, a Napoleão Bonaparte, que contam, declamou versos a ela enquanto os ventos do Nilo esvoaçavam seus largos cabelos. Deve ter sido um belo quadro...
 
Deixamos o Cairo com algo de solidariedade pelo povo egípcio. São como os nordestinos no dizer de Euclides da Cunha: antes de tudo uns fortes. Só têm ao Nilo, em meio à solidão do deserto. Agarram-se ao passado grandioso dos faraós, como forma de garantir a altivez do presente e legar isto ao futuro.

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