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Chegamos à Asunción por volta do meio dia. O sol de verão nos recebeu com um enorme sorriso, tão contagiante quanto quase insuportável.
 
No hall de recebimento de bagagens, os carregadores não perguntaram se seus serviços eram desejados: tomaram-nas das mãos no momento em que as tocamos na esteira. Só as deixaram no carro e após o devido pagamento.
 
Uma Besta, caindo aos pedaços, conduzida por um simpático Roberto, levou-nos ao hotel.
 
Desculpou-se o Roberto: o carro estava sem ar, mas o hotel era refrigerado.
 
- El mejor quatro estrellas de la ciudad. Em um portunhol bem explicado, comunicou-nos o Roberto, a qualificação do hotel.
 
De repente um barulho de coisas caindo ao chão. Eram nossas malas e sacolas: a porta traseira do veículo se abrira e nossas bagagens rolaram solenemente no asfalto, correndo atrás dos donos em pulos mirabolantes.
 
Roberto meteu o pé no freio sem piedade. Quem estava desprevenido nos bancos de trás da Besta, continuou a viagem e estatelou-se no encosto do banco da frente.
 
Sorte não vir carro algum atrás, ou, além de atropelar nossas malas, iria parar na traseira da Besta.
 
Saltei e ajudei a juntar as tralhas. Tudo recuperado. Vou escrever à Sansonite: as malas resistiram bravamente. A cena daria um ótimo comercial de malas resistentes.
 
Chegamos ao que seria o melhor quatro estrelas de la ciudad. O lobby agradou. Os apartamentos tinham os móveis desmanchando. O carpete soltava nas emendas e tinha aquele cheiro característico de mofo. As cortinas saltavam dos trilhos, completando aquele ar decadente dos filmes noir.
 
O banheiro simplório mas limpo. O chuveiro direcionava todos os jatos de água que dele saíam em qualquer outra direção, menos em quem estava embaixo dele se querendo banhar.
 
Eis que porém, nem tudo estava perdido: o ar condicionado, de fato, funcionava.
 
Uma gripe forte nos havia acometido desde que saíramos do Brasil. Os tradicionais comprimidos falhavam desde Buenos Aires.
 
Resolvi sair e procurar uma farmácia para tomar uma injeção. Antes entrei em uma casa de câmbio: tirei cem dólares e pedi ao caixa que os trocasse em guaranis.
 
Ele olhou a nota contra a luz, encolheu-a e esticou-a com estudada tensão para ouvir o estalo característico da nota verdadeira, segundo os entendidos.
 
Segurou a nota com uma mão, enquanto roçava-a com os dedos polegar e indicador da outra para sentir as filigranas.
 
Enquanto ele fazia este movimento com os dedos na nota, seu olhar fitava algo invisível no infinito, como se ele tateasse com os olhos o veredicto que lhe dariam os dedos sobre a nota.
 
Terminado o ritual de análise, admoestou-me: a nota era boa. Se não estivesse um pouco amassada e sem uns riscos aqui e marcas ali, valeria dois mil e duzentos guaranis. No estado em que estava, todavia, pagaria por ela não mais que dois mil e tivesse eu certeza absoluta de que não conseguiria mais que aquilo em toda a República del Paraguay.
 
Sorri e retruquei que era a primeira vez no mundo e na vida que me pagavam dólar não pelo valor de face da moeda e sim pelo estado do papel.
 
- Sí usted quieres es asi. Respondeu-me o caixa, que tinha cara de guerrilheiro tupamaro.
 
Olhei o bolso. Encontrei uma nota que me pareceu, valeria mais que os dois e duzentos pela análise da casa. Mostrei ao caixa e falei que queria dois mil e trezentos guaranis por aquela. Ele sorriu e sentenciou:
 
- Dois e duzentos, nada mais.
 
- Dois duzentos e cinqüenta. Nem eu nem usted. Retruquei.
 
- Si usted quieres es como dois e duzentos ou puedes procurar otro banco.
 
Com a entonação que ele deu, aceitei os dois e duzentos.
 
Achei uma farmácia que aplicava injeções e expliquei a uma simpática senhorita a gripe que me acometera e disse que queria uma injeção que fosse tiro e queda.
 
A moça sorriu e convidou-me a entrar para trás de uma prateleira em estilo rococó. Misturou duas ampolas a um vidro com um pó branco e encheu uma seringa. Senti aquele cheiro característico que já faz doer antes da furada. Levantei a manga da camisa para mostrar o braço à agulha.
 
- Non! a las nádegas!
 
- A las nádegas?!
 
A moça esperava com um sorriso tão terno e maternal que desabotoei a braguilha e abaixei as calças. Lá estavam as minhas nádegas à mostra a uma singela donzela da República del Paraguay.
 
O lugar da agulhada ficou roxo por uma semana, mas a gripe foi embora no outro dia.
 
Levei a família inteira para ser espetada a las nádegas. Todos com o bumbum roxo mas sem gripe: a injeção era legítima e muy preciosa.
 
Olhada com bondade, Asunción é uma pitoresca e limpa cidade de um milhão de habitantes às margens do Rio Paraguay, em que se misturam o antigo da época colonial, quando foi o ponto de trânsito para os europeus que buscavam o ouro e prata do Alto Peru, com o concreto e o vidro da arquitetura moderna.
 
O Palácio do Governo, de 1860, a Casa da Independência, de 1722, a Catedral Metropolitana, de 1689 e o Panteão dos Heróis, é o que se deve visitar.
 
Depois é perambular pelas ruas e parques antes de pegar o próximo vôo.
 
Quando de volta do Perú, tivemos que novamente descer em Asunción, para tomar o avião para o Brasil, minha esposa prestou atenção em um garotinho de seus 10 anos, que passara a viagem toda, de Lima até o avião começar a descer para o pouso, quieto e taciturno.
 
Quando a comissária anunciou que dentro de instantes estaríamos pousando, o pequeno empinou-se na poltrona e seu rosto foi iluminado por um brilho que lhe vazava dos olhos: procurou a janela e mirou a cidade.
 
Avistou-a e seus olhos brilharam mais. Virou-se à mãe, e com a afetação que a inocência empresta à felicidade, exclamou:
 
- Mira, mama! mi Paraguay querido!
 
A caminho do hotel a cidade me pareceu mais aconchegante e hospitaleira, por conta da exclamação sincera do pequeno guarani: ele me fez enxergá-la com os olhos que eu não a houvera visto antes.

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