camin
 
Há certos lugares que têm vida. E o que é a vida senão uma sucessão de emoções?
 
Caia uma ligeira garoa em Buenos Aires: era uma tarde de janeiro. Eu e Ann descemos do ônibus que nos conduziu até a parte velha da cidade.
 
Sempre que eu ouvia a canção "Caminito", assomava-me um desejo de visitar o local, que foi imortalizado pelo compositor portenho Juan Filiberto, .
 
Quando entramos na pequena rua, senti uma profunda emoção e imediatamente constatei que aquele era um destes lugares que têm vida.
 
Caminito, um beco pitoresco da área portuária de Buenos Aires, foi o porto de entrada de milhares de seres humanos que vinham de além mar para a então próspera capital portenha, fazer a vida.
 
Por ali saltavam, dos grandes transatlânticos, corações cheios de amarguras e saudades da terra natal, amores largados, esperanças perdidas. O que amalgamava todos aqueles sentimentos era a enorme fé no futuro.
 
Corações partidos deixavam a Europa e o Norte da América. Corações resignados saltavam no cais de Buenos Aires, e o primeiro passo no chão latino era na Caminito.
 
Ali mesmo ficavam os que não tinham onde se alojar: carcaças de barcos eram puxadas para a terra e serviam de morada.
 
Os restos das tintas dos barcos reformados eram usados na pintura das casas, o que deu a Caminito um colorido alegre e descoordenado, parecendo um mata-borrão onde milhares de artistas enxugaram seus pincéis.
 
A proximidade do mar fez com que os juncos proliferassem e os trevos tomassem conta de tudo, subindo pelas casas e debruçando-se nos telhados.
 
Os moradores, mais por indolência do que por estilo, não tiravam os juncos e os trevos e estes se cobriam de flores e davam ao local um aspecto que inspirou muitas telas.
 
Os trabalhadores do mar aportavam ali a procura do amor das rameiras e dos prazeres dos botecos onde o tango arrancava paixões.
 
Caminito não dormia: durante o dia era o movimento do partir e chegar dos navios e barcos. As toalhas, os lenços brancos e as lágrimas da partida, contracenando com o olhar espremido e esperançoso dos que chegavam.
 
À noite, à meia luz dos lampiões de gás, era o grande palco da vida, onde os homens encenavam suas peças para fugir um pouco da dura realidade do dia.
 
Uns afogavam suas mágoas na de bebida e nos braços da portenha que por alguns pesos seria por instantes, sua amada; outros preferiam pegar um bandónion e rasgar tangos à lua, que ouvia paciente o desespero que dedos e braços cansados e vagabundos tiravam à esmo.
 
Foi ali também que um jovem grego desembarcou uma tarde, tendo como bagagens, uma pequena maleta com duas mudas de roupas e um coração cheio de resolução.
 
O jovem era um calafate. Depois de algum tempo começou a fabricar pequenos barcos de pesca. Algumas décadas depois aquele jovem ficou mundialmente conhecido como um dos grandes magnatas da navegação mundial: Aristóteles Onassis.
 
O tempo passou, os navios pararam de vir. Um novo e moderno porto foi construído e não havia mais sobras de tintas para borrar o Caminito.
 
Foi feito um grande projeto urbanístico para a área: a pequena rua sumiria e ali deveria ser um calçadão frente ao mar.
 
Os que perceberam que estava prestes a morrer um pedaço da história de Buenos Aires se levantaram. Mas parecia não ter jeito: os reformadores urbanos queriam aquele beco fora da paisagem.
 
Um fim de tarde, artistas da noite portenha foram dar o último adeus ao local, pois que estava marcado o começo da demolição.
 
Juan Filisberto, um famoso letrista argentino, estava entre eles e, nos azulejos de uma parede da rua, desenhou os versos que intitulou de Caminito.
 
Eram versos cheios de ternura, angústia e saudades pelo que fora outrora aquele lugar. Foi, talvez, a mais bela letra de Juan Filisberto.
 
Gabino Coria Peñalosa, um bandeónista, também estava entre os presentes e, de imediato, musicou o verso em um tango. Saíram dali para gravar a canção, a fim de que a mesma fosse uma espécie de réquiem pelo fim do local.
 
As rádios divulgaram a canção, que foi um sucesso imediato, transformando-se em um hino contra a demolição de Caminito. Os portenhos entenderam o que significava aquele lugar e se levantaram contra o seu desaparecimento.
 
A Prefeitura de Buenos Aires resolveu ceder e deixar tudo como era antes, apenas dando-lhe estilo: o velho cais, as carcaças dos navios e barcos descansando de idas batalhas com o mar, as casas e seus coloridos diversos foram tombados e são periodicamente repintadas.
 
Já caia a noite quando sentamos em um dos bancos que se espalham pela rua.
 
De fato o tempo parou ali. É só olhar em redor e colocar a imaginação para voar. Com certeza se ouvirá uma vitrola fanhosa cantando Gardel. Na penumbra, um solitário tirará notas de um bandónion. Uma portenha despudorada lhe convidará. Ouvir-se-á um apito grave: mais um navio que aporta. Milhares de almas descem: corações cheios de incertezas e esperanças.
 
A imaginação pousa e volta-se à realidade. Olha-se uma parede e lá estão, em um azulejo carcomido pela impiedade do tempo, os versos de Juan Filisberto: "Caminito que todas las tardes / Feliz recorria cantando mi amor / No me diga se vuele a pasar / Que mi llanto tu suelo rego / Caminito que ereto de cardos / La mano del tiempo tu huella borro / Ya tu lado quisiera caer / Y que el tiempo nos mate a nos dos".

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