angustia
 
Chovia forte aquela tarde em Eldorado do Carajás.
 
Passados três quilômetros da cidade, avistamos as barracas cobertas de palha que haviam sobrado do confronto do dia anterior.
 
Dentro se amontoavam os protagonistas que haviam estado entre as duas colunas de policiais militares que abriram fogo.
 
Em princípio pareciam desconfiados. Em segundos a característica mais marcante do brasileiro vem à tona: adoramos contar nossas vidas e saber a dos outros.
 
Todos queriam contar a sua participação no conflito e chorar seus mortos. Era a angústia e a revolta em busca de solidariedade ou de simples desabafo, para aliviar a alma.
 
O Sul do Pará vive sua gênese e seu apocalipse ao mesmo tempo.
 
Onde ontem era mata virgem hoje é um amontoado de casas desordenadamente plantadas por brasileiros, na sua maioria expulsos pela miséria de outros brasis em busca de uma terra cantada de oportunidades.
 
Onde ontem era um povoado em volta de um garimpo qualquer hoje só se sente o cheiro que os humanos deixam quando vivem sem um mínimo de dignidade.
 
As revoluções, disse Victor Hugo, espalham homens pelo mundo afora. A miséria também faz isto.
 
Os sem-terra não são bandidos, vagabundos ou foras da lei como querem alguns precipitados, embora no meio deles, como em todos os meios e camadas sociais, existam bandidos e vagabundos, alguns até de terno e gravata.
 
Por trás deles existem pessoas de boa fé e também interesses escusos e eleitoreiros, assim como no conjunto de qualquer instituto, seja ele governamental ou não, existem aqueles mesmos fatos.
 
Existem aqueles que também se apoderam de parcela do movimento para se locupletarem de seus benefícios, assim como existem grupos que se apoderam de parcelas de um governo com o mesmo intuito.
 
Os sem terra são movimentos humanos, com todas as imperfeições, angústias, espertezas e ideais característicos da nossa espécie.
 
Quando cheguei á curva do "S", palco da tragédia, ainda havia poças de sangue que aos poucos escorriam com a chuva, num vermelho já desbotado.
 
Olhávamos na direção de um dedo indicador de alguém e nossa vista encontrava um pedaço de mandíbula humana misturada com a lama. Os mais jovens brincavam:
 
- Só ainda está aí por que não tem dente de ouro!
 
Outro indicador e a vista encontrava restos de massa encefálica dentro de um boné.
 
Abstraí-me do movimento e observei, de cima de um caminhão. Veio-me à mente cenas do Último Selo, de Ingmar Bergmam.
 
Ouvi Augusto dos Anjos murmura-me aos ouvidos: “acostuma-te à lama que te espera; o homem que nesta terra miserável vive entre feras; sente a inevitável necessidade de também ser fera.”
 
Tudo que ocorreu em Eldorado do Carajás foi a crônica de uma morte anunciada.
 
A negligência continuada do governo federal em dar uma solução definitiva à questão agrária do país, aliada a um consentimento tácito das invasões; a imprudência do governo estadual em dar uma ordem de desobstrução à uma polícia despreparada e desestruturada para cumpri-la sem consequências trágicas, e a imperícia na execução da ordem, resultaram na tragédia.
 
Não se deve todavia direcionar o ódio da sociedade à instituição Polícia Militar. Os soldados atrás das metralhadoras têm, na sua maioria, a mesma origem social dos sem-terra: são também sem-salários, sem apoio estrutural, sem política de formação operacional mais eficaz. Não se deve esperar que estivessem dispostos a oferecer flores a quem lhes jogassem foices.
 
Os que atiravam as foices também não devem ser objetos dos nossos vieses de juízes.
 
Os que estão por trás de ambos é que são os verdadeiros agentes do holocausto. A estes, infelizmente, a história costuma proteger com a impunidade.
 
Alguns são até admiráveis senhores da república.

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