Sierra Maestra
Em 1966, quando eu tinha seis anos, comecei a ouvir sobre um bando de malfeitores, comandados por um tal Fidel e outro bandoleiro chamado Che Guevara, que haviam tomado um país inteiro de assalto, vencendo todo o exército daquele país e mais os soldados dos EUA.
Era como se Lampião tivesse tomado o Brasil inteiro e fosse agora o presidente.
Nas minhas brincadeiras eu era o Lampião. Troquei o amor velho pelo novo: passei a me chamar Fidel e meu melhor amigo de infância, não sei por onde ele anda hoje, passou a ser o Che.
Os vales do Tocantins passaram a ser a Sierra Maestra e uma pequena ilha no meio de um igarapé que cortava a cidade, passou a ser Cuba.
Por mais que eu tente, hoje não consigo lembrar a minha última conquista da pequena ilha. A memória com o tempo fica sovina.
Lembro de episódios de caipira livre, criado no Rio Tocantins e na mata amazônica, mas quando quero lembrar a última das travessuras, ela se esconde em algum obscuro canto da lembrança. O homem que hoje sou não consegue buscá-la.
Cada reminiscência daquele paraíso perdido é recebida com serena saudade, contudo, à medida que ela vai se volatilizando nos escaninhos da vida, resta uma alegre saudade com cara de melancolia.
Já jovem, a Revolução Cubana pareceu-me simpática, romântica e necessária.
A literatura a respeito era escassa, mas eu lia tudo que me chegava aos olhos. Queria saber tudo sobre a Ilha e seu povo. Tudo sobre Fidel Castro e seus companheiros. Com cautela porém: ser comunista, naquela época, era encrenca certa.
Eclodiu o que no Brasil se chamou de a guerrilha do Araguaia, que recrutou jovens intrépidos que sonharam fazer dos vales do Araguaia, as montanhas da Sierra Maestra.
A ditadura militar caiu em cima dos guerrilheiros como os paraquedistas do De Gaulle caíram em cima dos argelinos: sem piedade.
Os guerrilheiros resistiram algum tempo: tinham mais que uma ideologia. Tinham uma fé: derrubar a ditadura militar.
Um homem que luta com fé‚ dá um bom trabalho a um exército de soldados que lutam apenas pelo soldo.
Mas só a fé não bastou. Sucumbiram os que ousaram desafiar os generais, afinal estes também tinham os seus ideais.
Esta foi, talvez, a diferença em Cuba: Fulgêncio Batista era somente um mafioso de estado e parte do seu exército foi aderindo aos revolucionários à medida que estes tomavam uma cidade.
Eu fazia a apologia da guerrilha. Um dia me dei mal com os arrotos: parado em uma ronda do exército cuspi no rosto de um tenente.
Levei um telefone (golpe que se dá simultaneamente nas duas orelhas, usando as duas mãos em forma de concha, que deixa a vítima momentaneamente surdo e sem equilíbrio). Ato contínuo, fui amarrado e jogado em um caminhão, onde deparei com outros amarrados, alguns com marcas visíveis de tortura. Um ainda sangrava e tinha um olho fora da órbita.
A Brigada de Infantaria Paraquedista do Exército, comandada pelo General Hugo de Abreu, jogou-se carcou as baionetas contra o, s guerrilheiros, já encantoados na Serra das Andorinhas, e poucos sobraram para contar a história.
Finou-se a guerrilha, mas a ideologia marxista-leninista já era viçosa. Os artistas e intelectuais tomaram o lugar dos guerrilheiros. As metralhadoras foram trocadas pela arte dos mais variados gêneros.
Mas o sectarismo de muitos e o estrabismo de outros gerou um caldo de gosto diverso: sucesso parlamentar para alguns, sucessos musicais para outros e nada efetivamente foi conseguido do que se pretendia.
Quando eu tentava advertir para a insensatez de certas posições, taxavam-me de traidor da causa.
Quando visitei Cuba pela primeira vez, a paixão que eu tinha pela Ilha se ratificou: encontrei um povo hospitaleiro e muito parecido com o brasileiro. Descobri que tínhamos muito em comum.
A tinhosidade do cubano é comparada à bravura dos sertões nordestinos brasileiros: sobrevivem no sol quente do serrado. Até nos balseiros, que querem chegar a Miami, desafiando o regime e o Oceano, está fundamentada a afirmativa.
De repente o mundo começou a mudar. O arremedo desfigurado do marxismo-leninismo que se experimentava no Império Soviético, que sustentava ideológica e financeiramente a utopia da expansão do socialismo além das suas fronteiras, caiu sobre o próprio corpo. A história finalmente acabou com a queda do muro de Berlim.
A democracia é a forma ideal de governo, porém é necessário que sejam revistos os métodos como ela se tem exercitado.
A democracia formal, como o socialismo real, a olhos mais profundos, acabaram. Ambos afundaram na areia movediça das suas próprias hipocrisias.
O vencedor da história foi o capitalismo puro e simples, que no jogo imprime, embaralha e dá as cartas, já marcadas.
Adam Smith deu capote em Karl Marx e rasteira em Lenin. Continuo sendo fã dos três.
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